No artigo anterior, contei como se passaram as horas, que se seguiram. Ninguém estava preocupado em comer, nem demonstrava cansaço, muito embora a maioria tivesse ficado a noite inteira acordada. Os depoimentos se seguiam, e cada vez mais a história ia se montando. Como num quebra-cabeças as peças iam se encaixando. E o quadro que se mostrava era claro demais. Pelo que se aferia dos depoimentos das testemunhas, a camioneta Explorer, AJA 1407, tinha atravessado o sinal fechado e pego no meio o Astra que vinha pela rua Tibagi. Isaias, o taxista, era o mais agitado. Não se cansava de repetir que " A camionete veio no pau, assobiando e passou no vermelho " " Tinha bebida no carro". " O pessoal da imprensa tava lá e viu". " Os rapazes nem se preocuparam em ajudar as vítimas, queriam era telefonar" " eu e mais duas testemunhas tentamos arrancar a porta do Astra, pra socorrer as vítimas" " as meninas já estavam mortas na hora". As tentativas de acalmá-lo transcendiam o simples fato de confortar uma pessoa que momentos antes tinha sido testemunha de um episódio terrível. A pretensão era de que ele não influenciasse as demais testemunhas que estavam sendo ouvidas. Cafézinho pra cá, cafézinho prá, e ele foi voltando ao estado normal . Entre telefonemas da imprensa, informações para superiores, estudo da estratégia a ser adotada na investigação, mais depoimentos, e a certeza cada vez maior de que o senador Requião interferira na apuração. Mesmo que ainda não oficialmente, a voz dos corredores traziam algumas notícias. " A oficial de dia -- uma aspirante com vinte e poucos anos -- foi peitada pelo home" " Coitada, muito novinha, sem experiência, tremeu na base" " Ele ( senador ) teve sorte, queria ver se o comandante da operação fosse um Cabo Véio, daqueles encardidos", ou um desses aspirantes quase saindo à oficial. Aí a coisa fedia" E tantos outros comentários. Alguns da imprensa, meus amigos até hoje, tinham a mesma opinião. 'É o home bagunçou o local, E todo mundo se encolheu". O poder é uma coisa muito, mais muito intimidativa. Conversei com várias pessoas que estiveram no local.Todas eles tinham um consenso. Em off me contavam tudo. Nenhum se atreveu a prestar depoimento. " Sabe como é Doutor, tenho meu emprego pra zelar" " Esse povo - referindo-se aos patrões, tanto públicos quanto privados - são todos amigos. No fim acaba sobrando pra gente" E assim, nesse ritmo a coisa foi andando. Testemunhas descrentes no futuro da investigação. Policiais militares se encolhendo. Pessoal da imprensa só falando em OFF. E a certeza de que o senador "avacalhou" a apuração perfeitamente consolidada. Nos noticiários não se falou mais nada aquele dia. O dia acabou, descanso e a cabeça a mil, imaginando situações, pensando nas providências a serem tomadas. Como sempre entre um dia e outro existe uma noite, aproveitei a pra dormir. Aquelas acordadinhas básicas na madrugada." Pô, por que não fiz isso, por que não fiz aquilo." Tinha que ter feito assim e fiz assado." Amanhã cedo eu resolvo. Enfim a manhã. Vocês não vão acreditar. Logo de manhã, outro acidente com vítimas fatais. E na Rua Amintas de Barros, desta vez no alto da XV. E o condutor, como manda a lei, e livre de interferências espúrias chegou à Delegacia. Acompanhado e filmado por um carro da TV Globo, o condutor fez - sem qualquer cerimônia - cocô nas calças, de tão bêbado que estava. . E esse também tinha um pai financeiramente bem situado. Esse pai, providenciou assistência jurídica e roupa limpa para o filho, e depois de uma conversa entre mim ,já estressado pela situação, o filho bêbado, e ele decepcionado, ouvi um daquelas frases que fazem valer a pena o esforço: " Filho, fique quieto. Já me fez passar muita vergonha. Já matou pessoas. O Delegado está fazendo o que tem de ser feito. Não seja mau educado com ele. Não foi nada disso que eu te ensinei" E como todo cidadão de bem , viu seu filho ser submetido ao império da lei. Certamente com o coração doído, mas com a consciência e a certeza de a lei é igual para todos. Menos para um e outro Senador.
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5 comentários:
o senhor vai contar mais sobre o acidente com o sobrinho do requião... estou curiosa em saber como acabou...
Por enquanto, anonimo, está do jeito que se espera da justiça brasileira:
Os parentes de gente "da panela" estão acima da lei.
Lei curta e grossa, só para "nosotros", a plebe.
Afinal, não temos amigos juizes, nem como pagar advogados caríssimos...
é... como sempre os "grandes" saem impunes, quero só ver o carli filho...
Muito obrigada pela resposta Carlos.
O Senhor desse ter sido um ótimo delegado!
Caro "anonimo", se eu fosse delegado de policia, podiscrê que o buraco iria ser muito, mas Muito mais embaixo...
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