Pensando ter me livrado das incômodas interferências políticas e ou outras, toquei o bonde em frente. No dia seguinte, ainda sem ter conseguido intimar os possíveis suspeitos, recebo uma ligação do meu delegado divisional, a quem mais tarde apelidei carinhosamente do “Cavaleiro do Apocalipse”. Cada vez que o homem ligava, vinha bomba. Mesmo tendo esse relacionamento profissional, um tanto quanto, assim, assim, preservamos uma amizade interessante até hoje. Uma das boas almas da polícia. Seu pai foi meu professor de Direito Penal na Faculdade. Sem muitas delongas anunciou: “O Delegado Geral, mandou te recolher”. Recolher significa, num primeiro momento a destituição do seu posto, e o recolhimento , à disposição da Secretaria Executiva, cumprindo expediente interno. Em suma: geladeira, castigo, etc.etc.etc.... . Questionado o motivo. Nada a esclarecer. Obviamente, imaginei que o único fato que pudesse ensejar uma reação tão pronta, fosse a pretensa intimação aos ciganos corruptores de menores. Insisti no motivo e nada. Evidente que ele sabia, mas não queria me dizer. Até por que, insisto, tínhamos e temos até hoje um bom relacionamento, e ele demonstrou sinceramente o seu desapontamento por um ato administrativo extemporâneo e intempestivo, certamente motivado por uma questão política, suspeita que posteriormente veio a se confirmar. Surpresa, raiva, indignação, frustração, reconhecimento da fragilidade da instituição. Enfim, uma série de sentimentos, que ao longo do dia foram se dissipando, até serem afogados no Bar do Pedrão. Um boteco, sem vergonha, sem nada para comer, cerveja quente, e outras coisas que bem representam essa sim, valente instituição nacional, misto de confessionário e divã de psicólogo, e que tinha como bravo comandante, o Pedrão. O homem entendia de tudo, principalmente da gente, e dos problemas que enfrentávamos no dia-a-dia, tudo isso na versão nossa e dos familiares dos presos, que nos dias de visita, se aboletavam por lá, até chegar a hora na deprimente missão. A chegada em casa, para transmitir a “boa notícia” para aqueles que dependiam de nosso esforço e nosso bem estar emocional, não foi nada fácil. Os filhos ainda adolescentes, mais acostumadas às ameaças dos bandidos, não conseguiam entender como as mais graves vinham do lado amigo. Paciência, compreensão, etc.etc... Fé em Deus, e bola pra frente.
No dia seguinte, o encontro formal pra tomar ciência da portaria (ato administrativo que nomeia, remove etc), foi muito chato. Teu amigo sabendo de onde veio a bomba e não poder falar. Você fazendo de conta que tá tudo bem, com vontade de mandar todo mundo à merda. Rápido e rasteiro como a situação pedia, fui-me embora. Vou pra Secretaria Executiva e depois vejo que faço da vida. Mentira. Não fui não. De repente, lembrei do sacrifício que fiz para chegar até onde estava. Lembrei desde a época de escrivão na Delegacia de Furtos e Roubos, na Av. Iguaçu. Tinha 23 anos de idade, e logo depois de passar no concurso era escrivão chefe da Delegacia. Aquilo era uma loucura. Um monte de tiras das antigas, policia de verdade, muito movimento, muitos delegados. Uns excelentes mestres, outros nojentos, asquerosos, pretensiosos, mal educados e tudo aquilo que a sociedade ainda hoje vê como arquétipo do mau policial. E tudo isso num período de ditadura, somente compreendido por mim, depois de algum tempo, oriundo do interior do estado.Lembrei -me do esforço de freqüentar a faculdade no período noturno, depois de puxar horas e horas de trabalho árduo, naquelas indefectíveis máquinas Remington, que acabaram por me dar força e agilidade nas mãos. Chegava na faculdade, suado, com fome,apascentada por um pão com bolinho e uma batida de maracujá, únicas coisas que o parco dinheirinho permitia. Lá encontrava todo mundo bonitinho, cheiroso, e sempre disposto a tomar um chopinho depois da aula, convite que era sempre descartado sob a alegação de cansaço. Na verdade, não era só cansaço, mas principalmente falta de grana, e o cuidado pra não perder o último ônibus da noite. Lembrei-me da minha formatura, sem muita festa. Lembrei-me da luta pra passar no concurso de delegado. Do terror que fui submetido por parte de um ex-delegado geral, conhecido pelas suas preferências sexuais pouco ortodoxas, que simplesmente resolveu andar no meu pé, pelo simples fato de eu ter escrito verdades a respeito da delegacia que ele comandava, em jornal classista. Lembrei das minhas lutas pelo interior do Paraná, da canalhice de alguns colegas que, num súbito ataque de cegueira, não “enxergaram” que estavam construindo um cassino sob suas vistas, e que no dia da inauguração conveniente, ou covardemente, viajaram, transferindo a responsabilidade para um delegado de verdade (tudo isso foi apurado em processo disciplinar - por isso muita calma meninos). Lembrei-me da incompetência de colegas no episódio do assalto ao Banco do Brasil, em Goioere, onde vários artistas se promoveram, ao invés de resolver o problema, concedendo aos bandidos, depois de uma semana de verdadeiras pantomimas, muito mais do que aquilo que eles inicialmente haviam pedido, e que me foi proibido de negociar Entre eles, o delegado geral que agora queria meu couro, para satisfazer alguém. Lembrei-me da sua atuação no episódio do Banco. Omisso e desinteressado como sempre, Tremendo de medo, de que eu e um seu adjunto já falecido, resolvessemos a situação como deveria ser resolvida. Lembrei-me da minha passagem pela Assembléia Legislativa, onde aprendi realmente como as coisas deveriam funcionar e não funcionam. Vi, as intervenções espúrias dos políticos, em questões que não lhe dizem respeito. Vi chantagens, vi conchavos, vi o povo sendo feito de palhaço nas galerias, enquanto lideranças, a portas fechadas e em rodadas de uísque decidiam o destino de nós – trouxas mortais - para depois voltar e fazer jogo de cena em plenário. Vi deputado crescer. Ensinei deputado a se vestir e falar Vi deputado morrer, por não me ouvir. Vi e lembrei disso tudo. E mudei o meu caminho. Vou pro gabinete do Delegado Geral. E fui....
SEMANA QUE VEM TEM MAIS..... A ESTÓRIA VAI FICAR INTERESSANTE

3 comentários:
muito bom.... guarda issso pra fazer um livro hein... ja pensou .... bj e to com saudades...
Nossa Guara, muito interessante eesa fase do blog, to curiosa pra saber o desfecho da estória!
E realmente como disse o Gui, daria um ótimo livro esses acontecimentos, sua vida em sí.
=*
Sensacional Guaricha, muito bom mesmo. Também to com saudades, principalmente do longo período de convivência que ficou lá pra trás. Muita coisa eu acompanhei, lendo isso tudo parece que estou revivendo aqueles tempos.
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