quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

PALAVRA DADA, PALAVRA CUMPRIDA

Conforme o prometido, vou contar uma estória acontecida comigo, e muito embora seja séria, o farei sob a ótica do humor, pois decididamente as coisas sérias não são levadas a sério.
Antes de entrar na estória propriamente dita, alguns comentários de fatos ocorridos nessas últimas semanas, merecem ser citados. Até por que na continuação vamos entender que tem tudo a ver com o que pretendo relatar, mesmo que desde os fatos até agora, quase dez anos já se vão, e, decididamente a estória se repete. Ou melhor, os cara de pau se repetem.
Duas coisinhas apenas para mostrar que as coisas não podem dar certo Exaustivamente demonstrado a metida de mão do governador do Distrito Federal, passou-se à discussão. Membros do seu partido, resolveram dar um prazo pra ele se explicar. Até aí, nada de mais. Afinal de contas foram os ilustres parlamentares que votarem leis que dizem respeito às matérias jurídicas, garantindo ampla defesa. O argumento, no entanto, para que isso fosse concedido, e impedisse a expulsão dos quadros do partido, com a conseqüente proibição de participar da próxima eleição, por falta de legenda, foi de que “haveria retaliação por parte do governador, e que fatos por ele denunciados poderiam incriminar outros políticos” Ah, tá. Então tá bom. A velha e conhecida chantagem. Quer dizer então tá todo mundo com o seu rabinho preso. Que maravilha. Cala boca todo mundo, senão o bicho pega. Linguagem muito mais apropriada à penitenciaria do que ao congresso. Mas funcionou. Quer dizer, entre a penitenciária e o congresso, só mudam os tipos de bandidos. A filosofia é rigorosamente igual. A propósito essa estória de ampla defesa quer crer, no meu humilde entendimento deveria ser aplicada ao homem de bem que eventualmente se vê envolvido numa contenda judicial. Não como corolário de uma chantagem barata, entre desonestos e corruptos (pretendendo serem honestos).
Outra coisinha básica. Os milhões de burros brasileiros (pelo menos no entender deles, políticos) assistem atônitos as explicações mais pueris. A falta de criatividade nas explicações beira o ridículo. Desde a compra de guloseimas natalinas – não vamos estigmatizar mais uma palavrinha tão bonitinha --- e emparelha-lá a outra de origem egípcia , que com tomate seco e rúcula é interessante, ao fato quase que sem importância de que as gravações “ foram manipuladas” e não querem representar o que demonstram. Ou pior ainda, que “isso é uma armação” e que as entregas de dinheiro foram gravadas por “inimigos políticos” Para com isso. É tudo ilusão de ótica, não existem as pessoas, não existem meias e cuecas, não existe dinheiro, não existe ninguém falando, nem rezando. É tudo montagem. Muito bem. Ninguém até o momento falou nada, absolutamente nada sobre o essencial. Alguém em situação absolutamente discorde com os ditames administrativos aparece transferindo dinheiro para outrem da administração, a troco de sabe se lá o que. Até onde eu sei, quer me parecer não ser exatamente o meio mais legal de se administrar. Então somos todos tolos, perguntado sobre a, e obtendo resposta de b. Mais grave, nos taxam de burros de memória curta. Sempre nos enganam e sempre nos contam as mesmas mentiras. E é pior que tem gente que acredita. Dito isso, vamos ao prometido.
O ano era de 2001, o mês outubro e o dia 27. Eu delegado de polícia, da Delegacia de Delitos de Trânsito, em Curitiba, função que vinha desempenhando a pouco tempo, e até então buscando “fazer a minha”, mesmo porque era apenas um Delegado Operacional, ainda que alguns meses antes exercesse função de chefia em outra unidade, até que “ a cigana me enganou” e o destino se encarregou de virar minha vida de ponta cabeça.
Algum tempo antes do mês de outubro, depois de um período de trabalho na Assembléia Legislativa do Paraná, assumi a chefia da Delegacia de Polícia do Sétimo Distrito Policial, sucedendo um colega, que, posteriormente, ascendeu ao cargo de Delegado Geral,. Lembro-me da ocasião e da lamúria do colega, em ser por mim substituído, e a despeito do tempo decorrido, não me esqueço de sua cara de poucos amigos e do seu desabafo “se quiser assumir uma delegacia boa tem de trabalhar na Assembléia”. Na ocasião fingi não ouvir, mas isso não me saiu da cabeça, não sei por que, talvez até por prenunciar uma fase tenebrosa que se avistava. Nunca acreditei em sorte ou azar, ao contrário sempre fui partidário de que tudo de trata de causa e efeito. Muito embora, principalmente em nossa profissão, as causas não são muito importantes. Os efeitos têm de satisfazer os interesses e pronto. Estava eu, solerte e faceiro no 7º DP, quando fui procurado por um colega policial, recentemente falecido, relatando uma situação grave que estava ocorrendo na área de circunscrição da Delegacia. Uma sua comadre, ou coisa assim, de origem cigana, mãe de duas gêmeas, menores de idade, contava que pessoas de sua comunidade estavam, a pretexto de tradição cigana, cometendo abuso sexual contra as menores, e ainda proferindo ameaças e outros crimes, como cárcere privado e outros que tais. Ouvidos regularmente mãe e filhas, a situação parecia ser factível e grave, ainda que alguns entendessem que se tratava de costumes e tradições??!!!!?????. Vá-lá. Não raros os casos de cerimônias e outras coisas ligadas à tradição que ocorrem por ai. Mas, a situação relatada, configurava, aparentemente, crime. E merecia investigação. Expeça-se, pois intimação ao supostamente envolvidos. Tudo certo. Tudo certo nada. Ao retornar da malfadada tentativa de intimação, o policial vaticinou, num verdadeiro exercício de futurologia.: “ Não tinha ninguém em casa”,”Acho que vai dar rolo” É uma caxanga ( residência) legal, no final da Augusto Stresser”, lugar nobre de Curitiba. Nada de novo, até então. O temor demonstrado pelo policial, certamente tinha origem em outros fatos em que pessoas influentes estão envolvidas, onde sempre as intervenções, notadamente políticas são certas. A experiência e o tempo de trabalho, faz com que a gente saiba driblar esses incômodos pedidos que sempre vem de maneira subterfugíca “ Oi Doutor, só to te ligando por desencargo de consciência”, “sabe como é” “é companheiro nosso, mas sei que o senhor saberá tratar o assunto com carinho”, fulano é companheiro e ajuda na campanha” Pronto tá feito o pedido, ainda que muito sutilmente, a espada de Demócles, instala-se sobre a nossa cabeça. Se essa situação parece ser desconfortável, e naquele momento não me ocorreu pudesse acontecer, aconteceu algo muito mais desagradável e que foi um divisor de águas na questão de transferência de policiais.
MAS, ISSO É ASSUNTO PRA UM PRÓXIMO ARTIGO... A COISA VAI LONGE.
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