Voltei finalmente à ativa. E olhe como são as coisas. Preferi não assumir como Adjunto da Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente, para não prejudicar terceiros, alheios a confusão, e acabei indo para a Delegacia de Trânsito, apitando menos que a moça do cafezinho. Coisas da administração. É que eu ainda estava atravessado na garganta do Secretário de Segurança e outros tantos, por força de ter, simplesmente, exercido meus direitos. Mas, enfim, a roda da vida continuava rodando. E como.
Menos mal, a então Delegacia de Delitos de Trânsito, já se chamou anteriormente, e por tempo razoável, Delegacia de Acidentes de Trânsito?!!!!!. Denominação que perdurou, até que alguém “descobriu” que acidente é acidente e crime é crime, e ela passou a ter, muito propriamente, a designação atual.
Depois de ter trabalhado em várias delegacias, em muitos lugares do Paraná, e também em Curitiba, imaginei que a Delegacia de Trânsito seria tranqüila. Vou tirar de letra. Enganei-me profundamente. Mortes, tiroteios, facadas, enfim violência pura é o que norteia as atividades das delegacias em geral. Na Delegacia de Trânsito a violência está circunscrita as vítimas do acidentes, normalmente pessoas do bem. Engraçado, aquele torrado, que enche a cara de cachaça, e sai fazendo toda a besteira do mundo raramente se machuca. Chegam à delegacia, mal se apoiando nas próprias pernas. Já vi muitos fazendo xixi e cocô nas calças de tão bêbados que estavam, e nem um arranhão. Enquanto as vítimas, na maioria das vezes, completamente sóbrias e cumprindo as determinações do trânsito, se arrebentam inteiras. Quando não morrem, ficam aleijadas, como cansei de ver. Num dia de sol, estava na sacada da minha sala, e imaginei ter visto uma pessoa de cadeiras de rodas. Desci rapidamente e vi um dos rostos mais lindos que me lembro. Era uma menina dos seus quinze anos, com sua perna e meia bronzeada pelo sol. O sorriso brilhante e espontâneo contrastava com a estória que narrava. Tinha pego uma carona com um namorado, que depois de tomar todas resolveu atravessar a BR116, sem muitos cuidados. O filho da puta ficou sem um arranhão, enquanto aquela criatura linda teve a perna amputada acima do joelho. Mesmo assim, ria, e conversa com todos, feliz por estar viva. E assim vi tantas outras coisas, que me fizeram considerar aquela delegacia uma das mais violentas que já passei. A violência oculta e dissimulada, que mutilava pessoas a cada dia. E a cada plantão uma lição. Desde famílias inteiras que caíram na Represa do. Vossoroca, túmulo de muita gente, até famílias que retiravam das águas o cadáver do filho de meses de idade, preso ao cinto de segurança, ironicamente inventado para salvar vidas, e depois tinham de se submeter ao trâmite burocrático infame para a liberação do corpo. Mas, a vida continuava. Bêbados ao volante, causando delitos. Pessoas teoricamente do bem, e que de repente se sentiam verdadeiros gladiadores, embalados pela mistura álcool/automóvel. Uma metamorfose incrível. Bebiam, pegavam o volante e pronto, viravam feras. Esqueciam-se de todas as normas de conduta em sociedade. Atropelavam, matavam, causavam danos, e ainda discutiam comigo e com o mundo. Eu parecia ser a representação de tudo que eles não gostavam. Eu era o cara que queria tomar o brinquedo deles. E as confusões se sucediam a cada plantão. E assim foi indo. Coisas inimagináveis acontecendo, como por exemplo, um motorista que trouxe praticamente arrastado um frentista de um posto de gasolina, por mais de dez quadras, até esfregá-lo nos ressaltos das paredes de uma trincheira, arrancando quase todas as vísceras da vítima, abandonando-a em seguida. E depois todos tinham uma explicação. E o pior, achavam que tudo não passava de um acidente, quando na verdade foram verdadeiros crimes, tratados brandamente pela lei.
Já realizando algum trabalho intelectual interessante, como consulta a Procuradoria Geral do Estado, sobre a questão da alcoolemia, delito que se dividia em estar sob efeito de substância que pudesse lhe tomar o verdadeiro controle da situação e causando dano potencial a terceiro e que resultou num parecer óbvio, mas que não vinha sendo observado. Pela discrepância entre o nível de álcool anunciado na parte administrativa e na parte dos delitos do Código de Transito Brasileiro, chegou-se a conclusão de que se o nível de álcool encontrado no sangue fosse inferior ao estabelecido na parte criminal, havia de ser considerada a conduta do agente quanto à periculosidade de sua ação. Isto é, se tivesse ele dirigindo de maneira correta, e apresentasse nível alcoólico abaixo do determinado na parte criminal do código, a infração era somente administrativa. Isso fez com que vários boletins de ocorrência fossem encaminhados a Justiça, sob essa fundamentação, desafogando o trabalho, e podendo se investir mais nos delitos mais graves. Fiquei feliz, ainda que minha intervenção tenha sido para se confirmar o óbvio;
Óbvio também era meu constrangimento em adotar procedimentos simples, mas doloridos.
A tristeza dos participantes do ato.. Tanto minha quanto dos reconhecedores, no auto de reconhecimento de cadáver. Era muito complicado sob o ponto de vista emocional. A parte retornava do IML com um pedaço de papel nas mãos, normalmente amassado pelo nervosismo, e dizia: “O moço do IML disse que o número é esse". Aquele simples pedaço de papel encerrava ao mesmo tempo uma estória de vida e de morte. Naquela representação singela, continha dados para um documento que autorizava o corpo ou o que restou dele, tomar seu último rumo. Quantas vezes a confecção desse malfadado documento - Auto de Reconhecimento de Cadáver – teve de ser interrompido, pela emoção que invadia o recinto, começando pelos familiares da vítima, ali sendo tratada como um número, e contagiava a todos os presentes, mesmos nós que – teimosamente – nos recusávamos a se “acostumar” com a situação.
E como em tudo na vida, foi-se criando uma rotina, amenizada somente pelo relato dos sobreviventes das tragédias, ensinando dia-a-dia a importância de se estar vivo.
Ai então chegou o dia 27 de outubro de 2001. O dia em que a vida de muita gente mudou. Mas isso é conversa pra outro dia.

Um comentário:
Toamara que não demore a continuação dessa...Adooorei as últimas postagens....E tá ficando cada vez mais interessante o blog hein...Parabéééns....
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