segunda-feira, 24 de novembro de 2008

TECLADO EM BRANCO

Engraçado como as coisas são! Nunca me dei bem com esse bichinho chamado computador. Talvez pelo fato de ser do tempo da quase dinossáurica máquina de escrever Remington. Máquina de escrever que deixou até hoje nos meus tímpanos aquele barulho inconfundível, quase um martelar, como se eu tivesse acabado de tomar um depoimento, ou terminado um interrogatório. Nessa fase da minha vida, trabalhava como escrivão de polícia, na Delegacia de Furtos e Roubos em Curitiba, na Av. Iguaçu, 880. Esta Delegacia é chamada até hoje pelos policiais da velha guarda como o QUILO. Não sei bem até hoje o real significado do nome, mas quer me parecer, seja pelo fato de ser uma delegacia da pesada. Isso lá pela metade dos anos 70, quando eu, no meu entusiasmo de principiante, não conseguia compreender algumas coisas que aconteciam, esquecendo-me, por pura alienação e falta de conhecimento, que estávamos ainda naquela fase negra da nossa história política. Aquela plaquinha de madeira, afixada na entrada do plantão, por onde vítimas, testemunhas e os presos adentravam sem qualquer distinção, parecia querer significar o verdadeiro espírito daquela unidade; “D.F. R, Aqui é o começo do inferno”. Hoje, imagino que esta expressão fosse dirigida ao grupo dos presos. Sei lá.
A lembrança até nostálgica de outros tempos da Segurança Pública serve apenas para ilustrar a minha briga com esse quase indispensável equipamento da era moderna. Sua excelência o Computador.
Enquanto que lá atrás, quando a gente errava (e não eram raros os erros, por conta da rapidez dos ditados, e a pressão natural dos trabalhos), era um tal de digo,digo,digo, e lá íamos nós, logo após uma palavra errada, a dizer: digo e grafava a certa. Imagine quantos digos e quanta dificuldade. Chegou-se a criar uma brincadeira, mais ou menos assim: “Quando digo Diogo, quero dizer digo”. Imagine o nó na cabeça.
Pois bem! Pelo menos para mim o nó continua. Foram-se os digos, e vieram os tais Ctrl, Esc, F1, F2 e outros efes, o Del, Ins, Pgup, PgDn, Pause Break, Alt Gr, e tantas outras siglas, muito mais assimiladas pelos mais jovens ( e bota mais jovens nisso).
E daí, começa o sofrimento. Já para tentar colocar alguma idéia no papel, por nós simples mortais, desprovidos do talento necessário à empreitada, a coisa não é fácil. Depois de algum tempo e várias operações altamente desnecessárias, chega-se a um texto que imaginamos legal. De repente, o susto, lá no meio de um parágrafo, uma frase que não ficou do jeito que deveria ficar. Fácil, deleta, e digita outra. Lá vamos nos tentar. Das duas uma ou deletamos o que é para ser deletado, ou misturamos as frases, com um pedaço de uma e o final de outra. O morador do interior tem uma definição interessante para o fato: “ Fulano não acuiéra bem as letra”. Imagino que seja, uma corruptela de acolheirar (de colher), ou seja, juntar as letras para formar a frase.
Mas isso não é nada. E quando tem que salvar. Aí aparece não sei quantas opções de salvar, e eu teimo sempre em salvar no lugar errado. Na hora de encontrar algum arquivo é aquela festa. Ou está salvo em vários lugares, ou o que é pior, em nenhum.
Aliás, essa estória de pasta e arquivo, também é meio incompreensível para uma cabecinha cheia de informações aparentemente necessárias para sobreviver no mundo atual. Mas, enfim o texto fica pronto. Quer dizer, quase pronto. Vamos à famosa correção do texto. Aquele simbolozinho ABC. Parece que ele foi feito para deixar a gente louco. É um tal de palavras grifadas com verde e vermelho. Outras que ele diz desconhecer, e a gente por se achar menos inteligente que Sua Excelência o Computador, também fica na dúvida quanto a grafia. Mas, acabou e vamos lá para a edição. Outra sessão. Já prestaram a atenção, que por mais que o texto seja conferido, corrigido, etc. etc... sempre aparece uma coisa errada, que desgraçadamente, só é descoberta quando o texto já foi impresso. Como, contrariamente a lógica, eu escrevo e corrijo, sempre vai ter erro. Isso fica por conta da nossa mente, que lê as palavras independentemente da ordem das letras.
Muito bem. E a nossa vida. Como a velha Remington e o moderno computador. Quantas vezes martelamos insistentemente numa questão, com força e nem sempre com a agilidade que deveríamos, e depois temos que nos desculpar com os “digos”. Desculpe não era isso que eu queria dizer. Desculpe, não erra isso que eu queria fazer. Como lá atrás nos textos cheios de remendos, maculamos a página branca da nossa vida, com atitudes inconseqüentes e egoístas. Isso quando não temos que rasgar a página, e magoar os que nos querem bem.
Quantas vezes, com tintas negras, escrevemos desgraças, mal querências, discórdias, maledicências, e depois falsamente corremos a tentar apagar o escrito, ou modificá-lo com um “digo”. Às vezes, o digo queria dizer Diogo, como na brincadeira. Mal por mal, essa “remington” parece ser o menor.
O mais grave ainda, é – como os modernos computadores – é deletarmos pessoas da nossa vida. Ou tentar colar e copiá-las. Ou dar-lhe um ESC. Ou mandá-las para um arquivo difícil de ser acessado. Ou exclui - lá da nossa caixa de pensamentos. Ou pior ainda, dar-lhe um END.
Tão bom seria, se independente do instrumento utilizado, a estória da nossa vida fosse escrita com as tintas do bem. Se nossa vida fosse simplesmente vivida, dentro dos limites do respeito ao próximo e do amor. Mas acho que isso só vai acontecer, quando for criado um equipamento com teclado em branco, e que somente impulsione seu texto e sua vida, quando seu espírito e sua alma emanarem bons pensamentos. Será que por isso que tantas pessoas tem dificuldade com o teclado. BOM DIA.
PS: certamente alguns ou todas as dificuldades anunciadas hão de aparecer.

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