quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

LOUCOS DE TODO GÊNERO





Impressionante como existem muito mais loucos por aí, do que a gente imagina. Na rotina de rodoviárias, nessas minhas idas e vindas do litoral para Curitiba, conhece-se de tudo, e principalmente muitas pessoas. Numa das últimas, após ser cumprimentado como se fosse outra pessoa, levei alguns longos minutos a me explicar que eu era eu e não aquele quem meu interlocutor imaginava. Mesmo diante da minha negativa, conversei ou melhor tentei conversar sobre o assunto que meu sósia dominava: a música, questão que, confesso, sou apenas um bom ouvinte. Quanto vi que a conversa realmente estava sendo mantida como se eu fosse outro, resolvi me identificar. A partir desse momento, aquele cavalheiro de terno preto, camisa branca, gravata vermelha, tudo combinadinho, ostentando orgulhosamente no peito um broche de uma organização filosófica, sacou daquela indefectível pastinha preta uma série de anotações e passou a desfiar comentários sobre sua atuação. Acreditem ou não, o homem se intitulou um “investigador secreto”, e em seguida começou a mostrar aqueles papeizinhos amassados, retirados dentro daquela pastinha surrada, com anotações que ninguém consegue entender. Segundo ele, a qualidade da pastinha, e a maneira de coletar informações, eram para não chamar a atenção. Se era esse o objetivo, não deveria ele me submeter à tortura nos próximos dez minutos, que na verdade pareceram intermináveis. O indiscreto espião desancou a contar estórias de supostos traficantes e outros que tais, todos moradores da região. A estória pareceu despertar o interessante dos demais passageiros, os quais discretamente, mas nem tanto passaram a se aproximar do desavisado 007, tudo isso para minha angustia. Sentia meu rosto enrubescer, o que parecia evidente nos olhos dos meus conhecidos, como que apiedados da minha situação. Mesmo tentando desviar o assunto, tive de ouvir “investigações secretas” contadas em alto e bom som, muitas delas com versões diferentes das investigações originais, algumas delas por mim acompanhadas quando no exercício do meu ofício de delegado. A predileção por suprimir instâncias e a pretensa intimidade com os “poderes supremos” de Brasília era de causar inveja. Não bastassem, os segredos profissionais publicamente relevados, em local e hora impróprias, escutei outros, agora pessoais. Descobri ser ele o pai de duas crianças que teve com uma amante (palavras deles), aos quais deu seu sobrenome, embora isso lhe causasse alguns problemas com seus colegas que o chamavam de corno, mas só de brincadeira segundo ele, repudiando tal qualificação, transferindo-a para o verdadeiro marido que mora em Curitiba. Segundo ele, seus amigos o tratam pelo apelido carinhoso, pelo fato de desfrutarem dos favores sexuais da tal amante. Quanto ao sobrenome, não consegui identificar, pois inadvertidamente ao perguntar seu nome, até numa tentativa de me despedir, recebi como resposta uma lista de codinomes – um para cada situação, compreende, disse-me ele –. Finalmente, minha salvação. = Chegou o ônibus. Ledo engano. O nosso querido e já não tão secreto espião, de passagem nas mãos, já tentava trocar de lugar com alguém para continuar a prosa. Mas Deus existe. Aquele era o meu ônibus e não o dele que viria alguns minutos depois. Despedi-me e fui embora. Depois de uma hora e meia de viagem – Curitiba. Para não perder a mania fui almoçar no botequinho de sempre, na mesa de sempre -- perto da porta, pra fugir do cheiro da gordura --. Depois de uma gostosa comidinha caseira e uma baditinha de maracujá deliciosa, fomos embora, eu e um amigo a quem contei o acontecido. Andamos vinte passos, e quem aparece? Meu ilustre 007, com quem brinquei estar me seguindo. Fez aquele olhar enigmático, como quem realmente estivesse. Por que será que a gente nunca tem essa sorte pra alguma que preste? Sem se importar com que me acompanhava imediatamente retomou o assunto recomendando-me a urgente viabilização de viaturas para a continuidade das investigações. Ai sim, o amigo que me acompanhou no almoço, viu que a estória não era fruto das batidinhas. Fui embora rindo, sem antes me lembrar que o dono do boteco, também não é muito certo, e costuma dar ripadas em seus clientes que se recusam a se retirar no horário que ele acha ser a hora de parar de beber. Rumo ao centro da cidade, vi loucos gastando como loucos, sem se importar com os próximos meses. Vi pessoas mais jovens, elegantes, e bonitas do que eu, pedindo dinheiro na rua, para comprar presentes. Credo. Vi muita gente comprando presentes do tal amigo secreto e outros, com o objeto em uma das mãos e a outra segurando o telefone: “Será que o Pedrinho vai gostar da cor, qual é mesmo o número dele?”. A mãe perguntando para a vizinha o número da roupa do filho. Eu heim! E outras loucuras mais. As bolsas e carteiras carregadas displicentemente fazem a “loucura” dos ladrões. E dá-lhe festa. Todo mundo louco para o Natal e o Ano chegaram logo. Depois de tudo, o sossego do lar. Lá pelas tantas chegam meus filhos, e uma amiga. Sabe como é, festas de fim de ano. Perde-se e a hora e o ônibus, mas se ganha um pouso. E pela manhã, lá está ela a procura de uma calça comprida que jura ter deixado sobre a cama. A dita cuja (calça) tinha sido cuidadosamente colocada sobre minha bolsa de viagem, e por obra de alguém zeloso, foi parar dentro dela. A descoberta a tempo nos livrou de duas situações inusitadas. Primeiro a de a moça ter de vestir uma roupa masculina para ir embora, e eu ter de me explicar como uma calça feminina, usada, foi parar entre meus pertences. E depois o louco sou eu!

Um comentário:

Lella disse...

hahaha MUUUITOOOO BOA!